Substâncias derivadas da Cannabis dão alívio a pacientes que não respondem a terapias convencionais.

DOR NEUROPÁTICA

     A dor neuropática é frequentemente crônica. Ela surge quando os neurônios no cérebro ou sistema nervoso periférico se tornam hipersensibilizados e geram  mpulsos anormais ou prolongados. Muitas são as causas para esse tipo de dor,  ncluindo neuropatia diabética, neuralgia pós-herpética, lesão do plexo braquial, fibromialgia, esclerose múltipla e câncer.

 
     A dor neuropática grave é difícil de tratar e as evidências sugerem que nenhum dos medicamentos disponíveis, incluindo os opióides, são eficazes no alívio dos sintomas em mais de 50% dos pacientes. Esta é, portanto, uma área de significativa necessidade clínica não satisfeita.


     As pesquisas com canabinóides demonstram que fisiologicamente essas substâncias são mais eficazes que os opióides no tratamento da dor neuropática. Diferentes hipóteses foram propostas para explicar esse fenômeno. Um deles é baseado na presença de uma maior concentração de receptores canabinóides do que opióides nas fibras A – estruturas nervosas responsáveis pela transmissão da dor pelo organismo. Assim, um agonista do receptor canabinóide é um inibidor mais eficaz que por exemplo a morfina de fenômenos dolorosos, como por exemplo o wind-up que, por sua vez, contribui para a desenvolvimento de hiperalgesia e alodinia. Outra hipótese para explicar essa maior eficácia dos canabinóides baseia-se no fato de que, diferentemente dos opióides, com o tempo eles não perdem a eficácia no manejo da dor neuropática.


     Estudos comportamentais mostraram que os canabinóides reduzem a alodinia (sensação de dor quando o estímulo não é doloroso) térmica e mecânica em modelos de dor neuropática em ratos. Esses efeitos antinociceptivos parecem ser mediados principalmente pelo receptor CB1, mas alguns dados também sugerem um papel para a antinocicepção mediada pelo receptor CB2 na dor aguda e neuropática.

FIBROMIALGIA

     A queixa principal dos pacientes com fibromialgia (FM) é a dor crônica generalizada, embora muitos apresentem sintomas concomitantes, como cansaço, rigidez matinal, sono e distúrbios afetivos, e outras alterações como problemas de memória e concentração, ansiedade, formigamentos/dormências, depressão, dores de cabeça, tontura e alterações intestinais.

Uma característica do paciente fibromiálgico é a grande sensibilidade o toque e à compressão de pontos no corpo.

     A fisiopatologia da doença é pouco compreendida. Vários mecanismos têm sido sugeridos e o tratamento é baseado no alívio dos sintomas, mas geralmente resultados obtidos são modestos e a satisfação geral do paciente e a qualidade de vida relacionada à saúde são consistentemente ruins.

     A diversidade de sintomas associados à doença geram debates entre correntes científicas que afirmam que a fibromialgia seria, na verdade, uma manifestação de um quadro depressivo e não se constituiria numa entidade nosológica distinta.

     No que diz respeito a medicina canábica, de acordo com evidências hipotéticas e experimentais, uma Deficiência Clínica Endocanabinóide tem sido proposta para estar envolvida na fisiopatologia da FM. A participação do sistema endocanabinóide em múltiplas funções fisiológicas, como modulação da dor, sistema de resposta ao estresse, regulação neuroendócrina e funções cognitivas, entre outras, já é bem conhecida. Além disso, estudos de psiconeuro-endocrinologia-imunologia (PNEI) mostraram que a dor crônica pode ser influenciada pelas disfunções do sistema de estresse que, por sua vez, também já foi identificado como modulado pelo Sistema Endocanabinóide. Sendo assim o uso de substâncias canabinóides pode ser uma alternativa ao tratamento de pacientes com FM.

INFLAMAÇÃO

     A inflamação é uma reação do organismo a uma infecção ou lesão dos tecidos. Em um processo inflamatório, a região atingida fica avermelhada e quente devido a um aumento do fluxo de sangue e demais líquidos corporais migrados para o local. Na área inflamada também ocorre o acúmulo de células provenientes do sistema inmunológico (leucócitos, macrófagos e linfócitos), com dor localizada mediada por certas substâncias químicas produzidas pelo organismo. No processo,
os leucócitos destroem o tecido danificado e enviam sinais aos macrófagos, que ingerem e digerem os antígenos e o tecido morto. Em algumas doenças esse processo pode apresentar caráter destrutivo.

     A inflamação pode também ser considerada como parte do sistema imune, chamado sistema imune inato, assim denominado por sua capacidade para deflagrar uma resposta não-específica contra padrões de agressão previamente e geneticamente definidos pelo organismo agredido. Esta definição se contrapõe à da imunidade adquirida ou aquela onde o sistema imune identifica agentes agressores específicos segundo seu potencial antigênico. Nesse último caso, o organismo precisa entrar em contato com o agressor, identificá-lo como estranho e potencialmente nocivo e só então produzir uma resposta.

     O papel do THC junto aos linfócitos e nas respostas imunológicas / inflamatórias é alvo de diversos estudos. Experimentos com THC em modelos animais procuram compreender melhor o complexo sistema endocanabinóide e as funções dos receptores CB1 e CB2. Estudos indicam que o THC inibe a síntese de prostaglandina E e estimula a lipoxigenase, porém não afeta a síntese de cicloxigenase-1 e cicloxigenase-2.

Pesquisas com modelos animais demonstraram que a administração de THC reduziu a inflamação das vias aéreas em camundongos e reduziu o desenvolvimento de aterosclerose e suas manifestações cardíacas e cerebrais, que nos casos mais graves são respectivamente o infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral.

     No entanto, um papel protetor para o bloqueio CB1 também foi observado, reforçando a complexidade da biologia dos canabinóides.

     O canabidiol (CBD) é geralmente o canabinóide não-psicoativo mais abundante na planta, e os análogos do CBD têm sido estudados mais extensivamente nos últimos anos. Pesquisas com modelos animais demonstraram que o CBD reduziu a inflamação articular na artrite induzida e o edema de pata em camundongos, a dor neuropática e a inflamação intestinal em ratos. Além disso, demonstrou capacidade de suprimir a produção do fator de necrose tumoral (TNF) α, uma substância altamente relacionada a processos inflamatórios crônicos, doenças auto imunes e ao câncer. O CBD parece exercer atividade antiinflamatória suprimindo a atividade da FAAH, enzima que degrada os endocanabinóides, aumentando assim as concentrações do endocanabinóide sabidamente antiinflamatório anisamida.

     Outro potencial uso terapêutico do CBD pode estar em sua capacidade de combater alguns efeitos indesejáveis do THC (sedação, efeitos psicotrópicos, taquicardia), sugerindo que, se administrado em conjunto com o THC, pode permitir doses mais altas de THC.

Em um estudo, o THC e o CBD foram administrados como spray de mucosa oral em 58 pacientes com artrite reumatóide. Os pacientes tratados tiveram redução significativa na dor e melhora no sono em comparação com os pacientes que receberam placebo. Além de uma ação anti-inflamatória, as substâncias canabinóides também apresentam atividade antioxidante via mecanismos não canabinóides.

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