Segundo o conceito da Associação Internacional para Estudos da Dor (IASP)
a dor é “uma experiência sensorial e emocional desagradável associada a um dano
real ou potencial dos tecidos, ou descrita em termos de tais lesões” e a sua
interpretação depende das experiências vividas por cada indivíduo.

Por que sentimos dor?

     A percepção da dor se inicia na periferia, através da ativação de nociceptores (receptor sensorial da dor). O estímulo doloroso é conduzido para a medula espinhal através das fibras Aδ, Aβ e C. Esses são considerados os primeiros moduladores da via da condução de dor, pois fazem sinapses com neurônios secundários da medula espinhal, que por sua vez, fazem sinapse com um terceiro neurônio no cérebro que completa a condução nociceptiva. Devido à bainha de mielina presente nas fibras Aδ e Aβ, acabam por transmitir impulsos nervosos 10 vezes mais rápidos que as fibras C. Já a dor crônica é aquela que permanece por mais tempo que o necessário para a cura de uma lesão, interferindo na qualidade de vida das pessoas. Pacientes com dores crônicas podem desenvolver sintomas secundários, como depressão, incapacidade física e mental, deficiências psicomotoras, entre outros.

     A partir da descoberta do SEC, tem-se demonstrado que a administração de agonistas de receptores de canabinóides naturais ou sintéticos apresenta valor terapêutico para um número de condições médicas importantes. Estudos sugerem que o uso da Cannabis medicinal pode ser útil no tratamento da dor aguda ou crônica, pois sabe-se que os agonistas dos receptores canabinóides têm efeitos antinociceptivos e anti-hiperalgésicos nos níveis periférico e central.


     Receptores canabinóides estão presentes nos circuitos de dor desde as terminações nervosas sensoriais periféricas até o cérebro. Os agonistas dos receptores canabinóides modulam os limiares nociceptivos por regulação da atividade neuronal e por ação em tecidos não nervosos. As substâncias endocanabinóides, como no caso da Anandamida, são liberadas por demanda no SNC, ou seja a partir da presença do estímulo doloroso tem-se o aumento da liberação dessas substância, com o objetivo de reduzir a sensibilidade à dor. Isso
corrobora com a idéia de que parte do efeito analgésico periférico dos endocanabinóides pode ser atribuída a um mecanismo neuronal em que os receptores CB1 expressos nos neurônios aferentes primários atenuam a transmissão da informação dolorosa entre os neurônios. Além disso, descobertas recentes sugerem que os receptores CB1 também estão presentes nos mastócitos (células de defesa) e podem participar de alguns efeitos antiinflamatórios.

     Estudos demonstram a eficiência dos canabinóides em diferentes graus de dor, entretanto a sua utilização medicinal com esta finalidade ainda não foi considerada conclusiva de acordo com a relevância científica dos trabalhos já publicados.

A Cannabis já tem sido utilizada com sucesso no controle de dores oriundas de diversas causas como enxaqueca, dores neuropáticas, oncológicas, reumatológicas e por inflamação.

     Nesses casos, muitas vezes analgésicos convencionais não funcionam de forma satisfatória ou podem até mesmo ser contraindicados devido ao risco de causarem dependência e complicações, como ocorre no caso dos opióides que podem levar a parada respiratória. Uma abordagem farmacológica promissora e com particular interesse para a terapia da dor é a combinação de agentes canabinóides e opióides. Substâncias canabinóides e o SEC apresentam diferentes níveis de interação com o sistema opióide endógeno. Os mecanismos de interação do sistema canabinóide com o sistema opióide reconhecidos são: liberação de endorfina; efeito poupador de opióides; redução dos fenômenos de tolerância e abstinência de opióides; e resgate da analgesia por opióide após o fenômeno de tolerância. É interessante perceber que parece haver sinergismo farmacológico entre substâncias canabinóides e opióides, e que esse fenômeno poderia potencializar os efeitos analgésicos de ambas, reduzindo assim as doses utilizadas sem prejuízo do efeito terapêutico, além de diminuir de maneira significativa os seus efeitos adversos.

Os efeitos colaterais

     O perfil de efeitos colaterais da cannabis medicinal continuará a ser uma área de foco e melhoria, especialmente os efeitos colaterais crônicos.

Os efeitos colaterais mais comuns incluem sonolência, tontura, boca
seca e disforia.

     Em um esforço para limitar os efeitos psicoativos da cannabis, mais estudos podem enfocar os agonistas periféricos do receptor CB1 ou o uso de canabidiol, ambos os quais tentam limitar esses efeito. Outras áreas de atenção incluem a prevenção da degradação dos endocanabinóides, Anandamida e 2-AG, que poderia melhorar a qualidade de anestesia central com menos efeitos colaterais associados.

     Embora a cannabis seja utilizada como medicamento há mais de 5000 anos, os estudos clínicos controlados por placebo e de alta qualidade para o seu uso são limitados. A evidência mais forte em apoio aos canabinóides para a dor parece ser a dor relacionada ao câncer, mas em doses médias e em doses mais altas devido aos efeitos colaterais. Os efeitos na dor neuropática, como no HIV, Esclerose Múltipla e pós-trauma também mostraram resultados positivos, já nos casos de dor aguda e espasticidade a melhora observada foi considerada leve. No entanto, os resultados da dor crônica foram os mais promissores, com alguns estudos mostrando reduções estatisticamente significativas na dor e na qualidade do sono.


     Ainda são necessárias muitas pesquisas em relação à cannabis e à dor para avaliar melhor os riscos e benefícios dessa terapia potencial, além também de uma melhor determinação em relação a dosagem ideal e as rotas de ação analgésica dos canabinóides. Embora haja uma série de efeitos colaterais relatados nos estudos de cannabis, nenhum dos pacientes nos estudos revisados experimentou quaisquer eventos adversos importantes. Esse ponto é importante, dadas as altas taxas de superdosagem e complicações com o uso de opióides. São necessários mais investimentos e mudança na Legislação para que tais trabalhos existam e possam chegar num grau de certeza científica.

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