Saber o que é doping e as substâncias proibidas geram dúvidas naturalmente, seja um atleta iniciando sua carreira, profissional ou amador. Com relação à cannabis, diversas questões precisam ser respondidas. 

A Cannabis é uma planta milenar utilizada por diversas culturas devido suas propriedades medicinais. Apesar de ter perdido força nos últimos anos, desde meados do século XX ela tem passado por diversos estudos científicos. 

Como resultado, foram identificados diversos benefícios que o uso medicinal da planta pode causar em nosso corpo, inclusive se tratando de atletas.

Diante disso, preparamos o conteúdo a seguir para trazer o cenário atualizado e como a entidade internacional de doping enxerga as substâncias da Cannabis. Acompanhe com a gente. 

O que é doping?

O doping é caracterizado pelo uso de substâncias que podem alterar a resposta do corpo frente a um estímulo. Na maior parte dos casos, ele é realizado por atletas que pretendem potencializar seu rendimento, força, agilidade ou até mesmo perda de peso.​

Dessa forma, ele torna-se uma questão de ética, onde princípios e valores do esporte são violados em prol de um ganho de performance que outros competidores não terão em condições normais de treinamento. ​

Assim, como o uso de Cannabis entra na equação, se não visa a diretamente melhorar o rendimento esportivo? ​

Na virada do século XXI, o controle de dopagem no esporte assume uma nova faceta, englobando também as drogas sociais. São banidos em várias modalidades desportivas a cocaína e, de modo inovador, o metabólito característico do consumo de Cannabis sativa.

Essa proibição visava estimular o papel ético que o atleta deveria exercer na sociedade, sem passar a imagem de alguém que faz uso de substâncias socialmente proibidas. 

A história do doping

Atleta praticando salto em altura. Imagem ilustrativa texto o que é doping
O doping começou a ganhar grande projeção nos grandes eventos esportivos entre a década de 1960 e 1980.

Entender o que é doping passa também pela sua história. A Guerra Fria trouxe a briga política ao campo do esporte. As estratégias russa e estadunidense não foram os únicos casos de um governo interferindo na projetação de um país em competições internacionais. ​

Entre 1960 e 1980, a então Alemanha Oriental dopou sistematicamente mais de 15 mil atletas, em um processo chamado Plano Tema de Estado 14-25, que começava desde a adolescência. 

A iniciativa teve, quase sempre, resultados incríveis nas pistas, piscinas e quadras, e desastroso para a vida dos atletas ao fim de suas carreiras.​

O uso exagerado de estimulantes na década de 1960, com a disponibilidade das anfetaminas sintéticas, estimuladas durante a Segunda Grande Guerra entre os soldados, levou ao estabelecimento, pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), do controle de dopagem em 1967. ​

Essa prática desenvolveu-se aceleradamente na década de 1970. Na Olimpíada de Montreal, em 1976, o abuso de anabolizantes ainda não era adequadamente controlado devido à falta de metodologia analítica para detectá-los. 

Com o avanço da tecnologia, novas técnicas de análise como a cromatografia gasosa, quando são usados químicos orgânicos para separação de compostos sem o risco da decomposição acoplados à espectrometria de massas foram desenvolvidas.

Dessa forma, os órgãos conseguiram ampliar e demonstrar seu potencial para diagnosticar o abuso das substâncias. ​

Como é feita a regulamentação do doping?

Cada esporte ou associação esportiva pode adotar suas próprias regras quanto ao doping. Assim, a Cannabis está inserida em diferentes regimes, os quais se diferenciam quanto a:

  • como a substância é tratada;
  • potenciais exceções; e 
  • possíveis punições.  ​

Por exemplo, a Federação Internacional de Futebol (FIFA), órgão máximo da modalidade, ainda não liberou o CBD ou outros canabinóides em competições oficiais. 

No entanto, em 2018, a entidade reconheceu publicamente que o CBD possui propriedades medicinais e terapêuticas que mereciam ser discutidas. ​

A National Basketball Association (NBA), desde o início da temporada 2020/2021, suspendeu a cannabis de sua lista de substâncias proibidas, deixando de testar os atletas para qualquer substância da Cannabis. 

Assim, a NBA se junta à Major League Baseball (MLB) e à National Football League (NFL), no caminho da permissão. 

Desde o início de 2020 a MLB já havia determinado o fim dos testes para a cannabis e a NFL decidiu pelo fim de punições para testes positivos.

Contudo, é certo que diversas agremiações atléticas simplesmente optam por adotar as mesmas regras divulgadas pela World Anti-Doping Agency (WADA), que todo ano atualiza as substâncias e métodos proibidos. ​

A lista divulgada em 1º de janeiro de 2021 serviu como referência para os Jogos Olímpicos de Tóquio, que aconteceram entre 25 de julho e 8 de agosto.

A relação da cannabis com a doping

Até 2021 a WADA só apresentava todas as substâncias proibidas, sem distingui-las entre drogas que melhoram o desempenho do atleta (performance enhancing drugs) e outras não relacionadas ao ganho de performance (non performance enhanced drugs).​​

A instituição inseriu essa diferenciação pela nova classificação “Substâncias de Abuso”. Ou seja, aquelas que frequentemente são utilizadas na sociedade, fora do contexto esportivo e sem o intuito de melhorar a performance. Entre elas estão a: 

  • Cannabis (THC e outros canabinóides);
  • cocaína;
  • heroína (diamorfina); e 
  • metilenodioximetanfetamina (MDMA).​

Diante do contexto, foram trazidas punições mais brandas para os atletas que testaram positivo para esse grupo de drogas proibidas, mas não ligadas ao aumento da performance. 

Anteriormente, a punição (geral) era de dois anos de suspensão de competições. Hoje, a pena para esse grupo passou para uma suspensão de um a três meses, a depender se o atleta entrar em um programa para mitigação do uso abusivo.

A instituição internacional divulga todo ano uma lista de substâncias proscritas, que são divididas em dois grandes grupos:​

  • Substâncias e métodos proibidos a qualquer tempo (ex: anabolizantes, EPO etc); ​
  • ​Substâncias e métodos proibidos em competições (exemplo da Cannabis).​

O Canabidiol CBD (puro/isolado) deixou de constar da lista proibitiva da WADA desde a atualização de 1º de janeiro de 2018. ​

O que diz a regra da Wada sobre cannabis?

Mão masculina segurando medalha de ouro.
A WADA permite apenas o CBD dentre as diversas substâncias medicinais da Cannabis.

Com relação às normas apresentadas pela WADA, é preciso seguir algumas orientações para não correr o risco de sofrer alguma punição. 

O uso do CBD (isolado/puro) está permitido, porém o uso da Cannabis (THC e outros canabinóides) é proibido durante as competições. 

Com isso, o atleta poderá ser punido, mesmo não usando durante a competição, se os canabinóides proibidos mensuráveis excederem o valor de 150 nanogramas/ML.

Importante prestar atenção que o período seguro de desconstituição do uso varia de pessoa para pessoa e pela quantidade de uso.​

Todo atleta que tenha uma indicação médica para usar uma droga constante da lista proibida pode pedir à comissão atlética que permita excepcionalmente o uso da droga prescrita pelo médico (TUE – Therapeutic Use Exemptions ). 

O TUE se aplica também para a Cannabis, cabendo ao atleta provar que:

  • sofrerá um prejuízo de saúde significativo se não usar; 
  • não ser uma substância de melhoria da performance;
  • inexistência de terapia alternativa razoável (ex: outras drogas para ansiedade e dores); e
  • a necessidade não tenha origem no abuso de substância. 

Gostou do nosso conteúdo sobre o que é doping e como as substâncias da Cannabis são vistas pelos órgãos de regulamentação do esporte? Continue com a gente e veja outros artigos em nosso blog.