5 tipos de tratamento para dependentes químicos

5 tipos de tratamento para dependentes químicos

Postado por Dr. Pedro Alvarenga

Existem diferentes tipos de tratamento para dependentes químicos que sofrem com problemas físicos, psicológicos e sociais em decorrência do abuso de drogas. 

A dependência química é uma doença crônica reconhecida pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que afeta cerca de 35 milhões de pessoas no mundo, segundo o Relatório Mundial sobre Drogas.

Ela é caracterizada pelo consumo compulsivo e abusivo de substâncias químicas, como álcool e cocaína, que trazem consequências em todas as esferas da vida. 

Diante disso, é importante que a dependência química seja tratada como qualquer outra doença, exigindo abordagem terapêutica profissional e personalizada. 

Neste artigo, você vai entender quais os principais tipos de tratamento para dependente químico, assim como os estágios e duração das intervenções terapêuticas. Acompanhe a leitura. 

5 opções de tratamento para dependentes químicos

Lidar com a dependência química, de fato, não é uma situação fácil. Pelo contrário, a negação da doença, medo do estigma social negativo e a falta de apoio de amigos e familiares são grandes entraves na busca do paciente pela reabilitação. 

De acordo com o Ministério da Saúde, os atendimentos a pessoas com transtornos mentais e comportamentais devido ao uso abusivo ou dependência química aumentaram 11% no Sistema Único de Saúde (SUS) em 2019.

Quando o uso de drogas passa a ser incontrolável, o usuário cria tolerância às substâncias, o que o leva a aumentar a dose para obter os mesmos efeitos. Assim, torna-se dependente químico da substância, às vezes sem nem perceber. 

Porém, o que muitas pessoas não sabem é sobre a existência de soluções terapêuticas para o abuso das drogas. O tratamento para os dependentes deve ser personalizado, levando em consideração a individualidade e a necessidade de cada paciente.

Principalmente, levando em consideração que cada fase necessita de cuidados e abordagens diferentes. 

Vale ressaltar que a escolha do método mais adequado deve ser feita por uma equipe médica multidisciplinar, que será responsável pelo diagnóstico e por propor soluções para cada caso. Confira quais são as principais opções:

1. Desintoxicação do organismo

A desintoxicação é o primeiro passo no tratamento para dependentes químicos. Ela é considerada a etapa mais crítica e importante, já que o paciente necessita de assistência médica por tempo determinado (geralmente por 24 horas), para a eliminação das drogas do seu organismo.

Inicialmente, o processo consiste na ingestão de doses cada vez menores da substância até que o corpo se acostume a viver sem ela. Nesta fase, os sintomas de abstinência e recaídas tendem a ser frequentes e o comportamento do usuário pode se alterar.

No geral, a desintoxicação dura cerca de 20 a 45 dias. Por ser um processo desgastante tanto físico quanto psicologicamente, a determinação e o apoio social são fundamentais para que a pessoa tenha forças para finalizar o tratamento.

Além disso, outras abordagens terapêuticas podem ser usadas de forma complementar ao tratamento, como o uso de medicamentos e atendimento psicológico. 

2. Abordagem psicoterapêutica

Psicólogo profissional fazendo anotações na prancheta, em consulta em sessão de psicoterapia. Imagem ilustrativa texto tratamento para dependentes químicos
O acompanhamento psicológico é essencial durante o tratamento para dependentes químicos.

O acompanhamento psicológico durante todo o tratamento para dependente químico é primordial para alcançar resultados mais satisfatórios.

Isso, porque a psicoterapia ajuda a manter a estabilidade emocional do paciente, além de ajudá-lo a evitar comportamentos de risco, recaídas e até mesmo a pensamentos suicidas.

Assim, existem diversas abordagens psicoterapêuticas indicadas para o tratamento da dependência química. Dentre elas: 

  • Psicanálise;
  • terapia cognitivo-comportamental;
  • terapia em grupo/grupos de apoio; e 
  • terapia ocupacional. 

A abordagem escolhida, por sua vez, irá depender dos sintomas, do grau de dependência, da estratégia de tratamento e da individualidade de cada um.

Nesta fase, é fundamental que uma relação de confiança e empatia seja estabelecida entre todos os envolvidos no tratamento, desde médicos clínicos, psiquiatras, psicólogos e assistente social.

3. Uso de medicamentos

Muitas vezes, a prescrição de medicamentos para o tratamento da dependência química é necessária para ajudar a reduzir os sintomas que surgem durante o processo. Além disso, ajuda até mesmo amenizar a abstinência das substâncias.

Caso a necessidade de uso seja identificada, as medicações devem ser criteriosamente escolhidas pela equipe médica responsável e seu uso monitorado para que o abuso seja evitado.

4. Internação

As internações são realizadas quando o dependente químico não consegue manter o tratamento sozinho, necessitando de assistência integral e multidisciplinar. Ficar longe dos ambientes e/ou de pessoas que incentivam o abuso de drogas é o principal objetivo desse tipo de tratamento.

Essa decisão deve ser tomada, preferencialmente, pelo próprio dependente químico, ou então indicada por um conjunto de especialistas. A internação é feita em hospitais e clínicas especializadas, onde todos os pacientes recebem o suporte necessário para se reabilitarem.

A Lei de Proteção e Direitos das Pessoas Portadoras de Transtornos Mentais (lei 10.216/2001) prevê três formas de internação: voluntária, involuntária e compulsória. Entenda cada uma delas a seguir: 

Internação voluntária

Como o próprio nome sugere, é a internação feito com o consentimento do usuário. Ou seja, o paciente aceita ser internado em uma clínica especializada e receber os tratamentos necessários por uma equipe de profissionais especializados. 

Internação involuntária

Neste caso, acontece quando o dependente não é capaz de reconhecer sua situação e pedir ajuda. A internação involuntária é, então, solicitada por familiares ou pelo responsável legal, após identificarem a necessidade da intervenção. Resumidamente, não há consentimento do paciente.

Internação compulsória

A internação compulsória, por sua vez, é determinada pela Justiça mediante solicitação formal do médico, atestando que a pessoa não possui controle sobre a sua condição física e psicológica. Dessa forma, não é necessária a autorização familiar do paciente.

5. Uso de CBD

Alguns estudos com a Cannabis medicinal mostram-se cada vez mais relevantes e promissores no tratamento para dependentes químicos.

Por meio da interação com o Sistema Endocanabinoide, que possui receptores presentes em diversos órgãos do Sistema Nervoso, o canabidiol (CBD) pode ser eficaz no alívio de sintomas de abstinências com efeitos colaterais mínimos. 

Ressalta-se que, na abordagem terapêutica com cannabis medicinal não existem relatos de dependência, visto perfil positivo de biossegurança da medicação. 

Em um ensaio clínico publicado no periódico JAMA, foram recrutados pacientes usuários de cannabis de forma recreativa e com sinais de dependência.

Após 12 semanas de follow-up e intervenção em um dos braços do grupo com canabinoides (Nabiximol), houve diferença significativa no número de dias com uso de cannabis em ambos os grupos, onde o grupo placebo (pacientes que não receberam intervenção) tivera aumento no uso da substância. 

A medicação foi bem tolerada com poucos eventos adversos. Da mesma forma, resultado com dependência de opióides também foram positivas. 

Quais os estágios do tratamento de dependentes químicos?

Mulher com os braços abertos em uma serra com o por do sol ao fundo.
Para um tratamento realmente efetivo é fundamental que ele seja personalizado para cada paciente.

A dependência química é uma doença crônica que exige cautela durante o tratamento. Muitas vezes, os pacientes se negam a perceber a própria situação e a necessidade de intervenção médica.

Pode-se dizer que os dependentes passam por um processo de cinco estágios até completar a reabilitação, de acordo com a fase de motivação para a mudança. São elas: 

Pré-contemplação

Neste estágio, o dependente não percebe os malefícios relacionados ao uso das drogas e está em negação do problema. Considera a preocupação das pessoas como exagerada e ainda possui resistência ao tratamento.

Diante disso, é indicado evitar o confronto, convidar o indivíduo à reflexão e, aos poucos, remover as barreiras propondo medidas de controle dos danos. 

Estágio de Contemplação

A contemplação é a etapa de consciência do problema relacionado à dependência química. No entanto, o indivíduo ainda não se mobiliza para interromper o uso das substâncias. 

Neste momento, é apropriado abrir uma discussão sobre os prós e contras do uso de drogas, ajudar o paciente a perceber os benefícios de largar o vício, assim como apresentar grupos de apoio, instituições e programas de reabilitação.

Fase de Preparação

Nesta fase, os prejuízos causados pela dependência química são percebidos com mais clareza pelo próprio indivíduo, assim como a aceitação de que uma mudança comportamental é necessária. 

O dependente, então, se mostra disposto a buscar ajuda profissional e se tratar. É o momento em que o indivíduo mais precisa de uma rede de apoio, entre amigos e familiares, para não perder a motivação do tratamento. 

Etapa de Ação

O paciente aceitou iniciar o tratamento e os resultados começam a ser perceptíveis no enfrentamento à dependência química.

Neste momento, é preciso acompanhar e ajustar as metodologias terapêuticas, assim como incentivar ações positivas que vão encorajar a continuar a reabilitação do dependente.

Manutenção de tratamento

Ao chegar neste estágio, o dependente encontra-se a pelo seis meses sem o uso de drogas. É considerada a etapa mais desafiadora, já que existe um esforço e disciplina para que não ocorram recaídas.

Aqui, ocorre a ressocialização do paciente, colaborando para a construção de um novo estilo de vida mais responsável e autônomo. 

Cada dependente químico estabelece uma relação diferente com a droga, de acordo com as necessidades e individualidades de cada um — sejam elas biológicas, psicológicas e sociais. 

Diante disso, as intervenções devem ser diferenciadas e personalizadas para cada indivíduo, considerando todos os aspectos envolvidos. Dessa forma, é possível reduzir os impactos das drogas, assim como evitar complicações emocionais, como ansiedade e depressão.

Ao conhecer as motivações que alimentam o vício, é possível trabalhar a reabilitação cognitiva e social do paciente como um todo, assim como a manutenção da qualidade de vida. No geral, as terapêuticas devem ser reavaliadas constantemente e adaptadas ao momento do paciente. 

Qual a duração do tratamento para dependentes químicos?

A duração do tratamento para dependentes químicos pode variar de acordo com o nível de dependência, perfil psicológico e motivação para a mudança do usuário, assim como o método terapêutico indicado. 

A suspensão do uso da droga é apenas o início do processo que pode durar em média de um a cinco anos. Além da reinserção do paciente no âmbito social, familiar e profissional e à prevenção de recaídas. 

Vale destacar que os resultados positivos de todos os tipos de tratamentos também dependem da determinação e força de vontade do dependente químico em superar o vício e não cair em tentação. 

Como vimos ao longo do texto, o suporte da equipe multidisciplinar e familiar é essencial nos tratamentos para dependentes químicos.

Você também conheceu mais sobre as opções terapêuticas disponíveis para tratar a doença. Para saber mais, continue acompanhando o nosso blog e redes sociais.

Referências

Lintzeris N, Bhardwaj A, Mills L, et al. Nabiximols for the Treatment of Cannabis Dependence: A Randomized Clinical Trial. JAMA Intern Med. 2019;179(9):1242–1253. doi:10.1001/jamainternmed.2019.1993

Purcell, C., Davis, A., Moolman, N., & Taylor, S. M. (2019). Reduction of Benzodiazepine Use in Patients Prescribed Medical Cannabis. Cannabis and cannabinoid research4(3), 214–218. https://doi.org/10.1089/can.2018.0020